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Manifesto | 21 dias contra o Racismo: Jornada de luta antirracista e anticapitalista em São Paulo

Há 57 anos atrás ocorria na África do Sul, durante o regime do Apartheid , o que ficaria conhecido como “O Massacre de Shaperville”, que era um ato pacífico contra a “Lei do Passe”, que impunha aos cidadãos negros da África do Sul, o porte de um passaporte para poder ter acesso às regiões centrais das cidades, estando assim presos aos bairros periféricos caso não tivessem autorização para trabalhar nas regiões centrais, nas quais moravam a parcela rica e branca do país. A situação precipitou um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da maioria negra dos habitantes foram cerceados pelo governo formado pela minoria branca.

No dia 21 de março de 1960, milhares de manifestantes caminhavam passivamente quando, sem nenhum aviso, a polícia decidiu abrir fogo contra os manifestantes. Isso resultou em 69 mortos e mais de 180 feridos. O mesmo ocorreu em Langa, na periferia da Cidade do Cabo, onde houve mais 3 mortos e 26 feridos. Como forma de lembrar este dia, foi instituído o “Dia internacional Contra a Discriminação Racial”.

Queremos que essa data deixe de ser apenas uma lembrança e se torne uma jornada de ações de luta contra o racismo, que atinge milhões de negros no Brasil e no mundo. Para nós, lutar contra o racismo é parte de uma luta que não separamos da opressão sofrida pelas mulheres, pelos LGBTs e pelos pobres em todo país. O racismo colabora para políticas que colocam os negros nos piores postos de trabalho, em situações de marginalização e atua sobre os negros com o genocídio físico e psicológico, a partir do momento que tira das vidas negras, a humanidade e a perspectiva de sonhar. Estamos mortos antes das balas nos atingirem. Sendo assim, é fundamental que as organizações da esquerda, do movimento negro e de organização de massas dos trabalhadores como os sindicatos tomem em suas mãos a luta contra o racismo e contra todo o conjunto de opressões sofridas pelos trabalhadores.

Queremos então nos solidarizar com todas as famílias dos mortos e desaparecidos negros, vítimas de um projeto genocida que visa a eliminação de jovens negros, cujas chances de serem assassinados antes dos 25 anos, são 70% maiores, como testemunham as inúmeras chacinas como as de maio de2006 em São Paulo e a ocorrida na região do Cabula, em Salvador, no ano de 2015. Somos milhares de Amarildos, Cláudias, Luanas e DGs que se levantam diariamente contra esse sistema racista que é o capitalismo e que coloca a perspectiva da miséria ou da morte como a única possível para negras e negros em nosso país. Somos também milhares de Mike Brown, Eric Garner, Steve Biko, Emmett Till e Rosa Parks, símbolos da luta dos negros internacionalmente, que com sua própria carne mostraram o caminho do qual os negros não poderiam dar nenhum passo atrás: da luta incessante por nossa própria liberdade e assim a liberdade de todos os demais oprimidos.

Os ataques do xenófobo Trump contra os imigrantes são mais uma faceta do racismo e demonstram a importância da luta internacionalista para combatê-lo. Após longa batalha judicial, que suspendeu ordem executiva anterior, o atual presidente dos Estados Unidos assinou em 6 de março um novo decreto, através do qual proíbe por 90 dias a partir do próximo dia 16 cidadãos da Síria, Líbia, Iêmen, Somália, Sudão e Irã de entrarem no país, todos países de maioria muçulmana. Diante da crise imigratória, é urgente resistir e denunciar.

Há um verdadeiro genocídio da população negra no Brasil. Entre 2002 e 2010, foram quase 273 mil assassinatos. Somente no ano passado, segundo dados do Atlas da Violência, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), foram cerca de 59 mil. Chama atenção o alto índice de jovens mortos pelas mãos da polícia, que obtém treinamento e armas do Estado racista de Israel, através de convênios firmados com os governos estaduais. Significa que as tecnologias militares que matam um negro no Brasil a cada 23 minutos são testadas sobre os verdadeiros laboratórios humanos em que converteram os palestinos. Novamente uma demonstração de que a luta internacionalista é fundamental para pôr fim à opressão e exploração em qualquer parte do mundo.

Além disso, passamos por um momento de acirrada ofensiva no cenário nacional, que já existiam durante o governo de Lula e Dilma Rousseff, mas que se intensificaram com o ilegítimo presidente Michel Temer, um dos principais articuladores do congresso mais assumidamente conservador desde a ditadura, como o demonstra a indicação e o ingresso de Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal, logo após sua rápida e desastrosa passagem pelo Ministério da Justiça. Em São Paulo, vimos a eleição de João Dória para prefeitura de São Paulo e do vereador Fernando Holiday, esse último, exemplo de como a burguesia responde ao apelo da representatividade negra apartada da luta anticapitalista, que ganha com ele um porta-voz para suas políticas racistas e que visam destruir todos os avanços conquistados em anos de luta do movimento negro. Além disso, não devemos nos esquecer da luta contra a ocupação militar no Haiti, conduzida pelo governo de Lula e Dilma é que segue no Governo ilegítimo de Michel Temer, que destrói a vida de nossos irmãos Haitianos, que são explorados como mão de obra barata aqui e lá em sua terra natal. Devemos gritar “Fora tropas do Haiti”.

O avanço nos ataques que o Temer e a burguesia vêm tentando aplicar atingem, sobretudo os negros, assim como a terceirização e a precarização do trabalho que atinge principalmente as mulheres do nosso povo. Se durante o governo do PT o número de trabalhadores terceirizados triplicou em todo o país, a perspectiva é que esse número aumente a cada dia mais, já que a reforma trabalhista que Temer quer implementar visa ampliar a flexibilização e precarização do trabalho. É flagrante como a flexibilização de leis trabalhistas ou a chancela da terceirização resulta em uma piora da já degradante condição das milhares de mulheres, particularmente, a mulher negra, que, desde a mais tenra idade, estão condenadas aos trabalhos precarizados e subempregos. Igualmente, pode-se prever quem serão os mais afetados pelo absurdo aumento da idade para a aposentadoria, conforme o proposto pela contrarreforma da previdência, já em curso. Ora, se a população negra tem uma menor expectativa de vida, evidentemente, será forçada a contribuir sem retorno algum, e, novamente, será entregue à imolação em favor dos interesses do capital.

A desigualdade salarial entre os negros e brancos, escancara como esse sistema está a serviço de dividir a classe trabalhadora. Pesquisas apontam que um homem negro recebe 40% a menos que um homem branco, e para as mulheres negras o dado é ainda mais chocante, elas recebem cerca de 60% a menos. A dupla, as vezes tripla jornada de trabalho atinge diretamente milhares de mulheres negras, seu direito a maternidade é constantemente negado pela falta de creches, escolas e restaurantes públicos, se tem filhos são condenadas a viver com o medo de que eles sejam assassinados pelas mãos da polícia. Ou então, passam a ser estatística entre os altíssimos números de mulheres mortas por abortos clandestinos. Mas a força dessas mulheres que dia a dia se enfrentam com o racismo e o machismo é o que nos inspira em nossa luta. Se hoje os negros estão em luta, essa se expressa de maneira muito forte na greve dos trabalhadores da CEDAE no RJ, que lutam contra a privatização da água e a precarização das condições de distribuição para a população, na retomada de territórios quilombolas no Maranhão e nos atos contra a morte de João Victor, jovem de 13 anos morto e arrastado por um segurança do Habib’s ao pedir comida.

Do mesmo modo, é notório o fracasso da guerra às drogas e a catástrofe da política do encarceramento em massa que, recentemente, se expressou no horrendo massacre ocorrido em Manaus. É necessário destruir a falácia de que o Direito Penal é uma solução para os problemas estruturais, advindos de uma histórica segregação que marca a transição brasileira do escravismo para o regime do trabalho livre assalariado. A irracional “guerra contra as drogas”, vem causando a morte de milhares de pessoas em todo o mundo. A teimosa insistência no modelo militarizado de polícia também deve ser compreendida como parte da racionalidade genocida de uma política criminal criada sob medida para legitimar a seletividade racista da violência estatal sobre os “inimigos internos”.
Vemos que a luta anti

racista deu um salto após a jornada de junho de 2013, tanto no Brasil com o surgimento de coletivos negros nas universidades estaduais e federais por todo país, o fortalecimento das ações contra o genocídio das negras e negros e de uma geração que cada vez mais se orgulha de levantar seus cabelos Black Power e enfrentar o racismo, quanto internacionalmente com o surgimento do Black Lives Matter (vidas negras importam) contra a violência policial nos EUA, e o Rhodes Must Fall (Rhodes deve cair) da juventude Sul Africana em sua luta por mais diretos e contra o aumento das taxas nas universidades e recentemente com os massivos protestos na França contra a violência racista da polícia. No Brasil a luta secundarista que sacudiu o país ocupando milhares de escolas e mostrando sua disposição para resistir, tinha na sua linha de frente a juventude negra. Queremos dar continuidade a este sentimento.

Para isso queremos resgatar o debate abandonado no Congresso de Durban, em 2001, no qual pautas históricas do movimento negro como as reparações históricas foram abandonadas. Queremos a imediata titulação das terras quilombolas e indígenas, queremos o não pagamento da dívida pública para todos os países que sofreram como sequestro de seus cidadãos para fins escravagistas e de todos os países que foram o destino destes africanos sequestrados. A retomada desta pauta nos possibilita abrir espaço para uma luta real contra a desigualdade e a pobreza, que são os legados deixados pelo capitalismo e pela burguesia para os negros no Brasil, pois coloca pautas corretas como: a Titulação das Terras indígenas e Quilombolas; desapropriação das famílias e empresas, nacionais e internacionais, que enriqueceram com o trabalho escravo negro durante a formação da nação brasileira, investindo esse montante nos territórios identificados como "territórios negros"; igualdade de salário entre negros e brancos e entre homens e mulheres; indenização do estados a todas os familiares de vítimas do genocídio praticado pelo estado através da polícia, entre outras ações.

Sem ligar as chamadas políticas de reparação para criar uma ponte para a luta contra o sistema capitalista, nunca conseguiremos derrotar verdadeiramente o racismo. Estes são um primeiro passo para trazer demandas corretas e necessárias que o Estado racista se recusa a implementar e que a ONU, grande organizadora da Conferência de Durban nunca vão conceder aos negros, uma vez que fala demagogicamente em combate ao racismo mas naturaliza a crise de imigrantes e refugiados hoje na Europa. Temos também a omissão da ONU frente ao projeto xenófobo de Donald Trump, que exclui países islâmicos de entrarem nos Estados Unidos e quer colocar a culpa da crise norte americana nas costas dos imigrantes, maior força de trabalho daquele país. Por isso queremos tomar as ruas como a Maré Laranja dos Garis do Rio de Janeiro ou como as mulheres que lutam contra o governo Trump nos EUA e ter a vontade de vencer dos mineiros de Marikana, na África do Sul.

Junte- se a nós contra o racismo, participando das ações do nosso calendário de luta ou organize em seu local de trabalho, de estudo ou em sua comunidade alguma ação contra o racismo e se some a esse movimento.

Assinam este documento
Rapper Luana Hansen - Movimento Cultural das Favelas - DNA - África (Diásporas das Nações africanas) - IdentidÁfrica - Biblioteca Virtual de Literatura Afro e Afins -Sarau da São Remo - Coletivo Cláudias - Núcleo de Consciência Negra da UNICAMP – Encontro AFRO-SP – Coletivo Tapera Taperá – Produção Preta – Emmy Cultura dos Tambores – Casa Casilêoca de Cultura – Afroguerrilha - Coletivo Negrume - Secretaria de Negras e Negros do Sintusp – Secretaria de Negras e Negros dos Metroviários de São Paulo – Esquerda Diário – Juventude Faísca: Anticapitalista e Revolucionária – Coletivo Negro Minervino de Oliveira – Coletivo Negro Quilombo Raça e Classe/ SP – Movimento Hip-Hop O3 (Ouvir, Ousar, Organizar) – Secretaria de Negros do PSTU – Centro Acadêmico Professor Paulo Freire (Pedagogia/ USP) – Centro Acadêmico Ciências Sociais da Fundação Santo André – Centro Acadêmico da UFABC – Sindicato dos Trabalhadores da UFABC – Restaurante Vegetariano Congolês Congolinária – Professores Pela Base – Levante Negro – Secretaria de Combate as Opressões do Sindsef-SP
Calendário de Atividades
10/03 – Onde estão os negros e indígenas na universidade?
Local: Auditório CAPPF – Horário: 19h30
10/03 – Emory Douglas, Ex-Pantera Negra no Sintusp
Local: Av. Prof. Luciano Gualberto, 374 – Travessa J
Horário: 12h
10/03 – Rolê Afrocultural - Assistir o film Moonlight
Local: Espaço Itaú de Cinema – Rua Augusta, 1475 – Horário: 20h30
10/03 – Sarau Ermelino Ocupa – A gente se acostuma, mas não devia
Local: Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo – Avenida Paranaguá, 1633 – Horário: 18h ás 21h
11/03 - Churrasco da União Social dos Imigrantes Haitianos
Local: vila dos estudantes, Glicério
Horário: 17h
11/03 – Sarau As histórias das Tulipas Negras de nossa História
Local: Casa Casilêoca Rua Perpétuo Junior, 178
Horário: 14h ás 22h
11/03 – Reflexões sobre a Representatividade Negra e seus desdobramentos
Local: Escola de Arte Dramática/ USP – Av. Professor Luciano Gualberto, Travessa J, 215.
Horário: 16h30
11/03 – Produção Preta: encontro de artistas independentes negros
Local: Praça Roosevelt - Horário: 18h
11/03 – Circuito Cultural Afro Brasil
Local: Casa amarela – Rua da Consolação, 1075
Horário: das 13h ás 18h
12/03 – 1° Afro-Encontro
Local: Parque do Ibirapuera Horário: 11h
12/03 – Assembleia Movimento Hip-Hop O3
Local: Sub-sede Apeoesp Santo Amaro
Rua Cerqueira Cesar, 484 - Horário: 09h ás 18h
13 a 16 de Março – Quem Tem Cor Age
Local: UNICAMP (Campinas) Horário: 14h ás 23h
15/03 – Autoras Africanas: Poesia e Resistência
Local: Av. São Luiz, 187 – 2° andar Loja 29
Horário: 19h ás 22h (Espaço Tepera Teperá)
16/03 - Ato por Justiça para João Victor - Boicote ao Habib’s
Local: Praça da Sé - 17h
18/03 – Debate: Acumulação Primitiva de Capital, Racismo e Eurocentrismo Parte 1
Local: Av, Santos Dummont, 843 - Armênia - Horário: 15h
21/03 - Debate: "Reforma da previdência e seus efeitos na vida da mulher" acontece no Ipen
Local: Ipen (Av. Lineu Prestes, 2242, Bloco A, auditório - Cidade Universitária) Horário: 14h
21/03 – Atividade Internacional Sobre Racismo e Capitalismo
Local: Lisboa (Portugal) - Horário: 17h
22/03 – Debate: Educação Infantil e Racismo
Local: Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) - Horário: 19h
24/03 – Cine Debate: Documentário “13° emenda” e o encarceramento em massa
Local: UFABC - Horário: 18h
25/03 – Debate: Acumulação Primitiva de Capital, Racismo e Eurocentrismo Parte 2
Local: Av, Santos Dummont, 843 - Armênia - Horário: 15h
26/03 – Sarau Vermelho: Dia Internacional da Luta contra o Racismo
Local: Campo Limpo - Horário: 14h
26/03 – Emmy Cultura dos Tambores
Local: Casa de Cultura do Tremembé Horário: 15h
30/03 – Dia da Terra Palestina
Local: a confirmar - Horário: 18h
31/03 – Sarau das Pretas: 1 ano de (R) esistência
Local: Aparelha Luíza – Rua Apa, 78
Horário: 19h ás 23h
01/04 - Batizado de capoeira Fonte do Gravatá!!
Local: CEU Jaguaré.
Horário: 14h
03 a 10 Abril - Semana Contra o Apartheid
* A programação pode sofrer alterações a qualquer momento acompanhe em https://www.facebook.com/events/739503896219728/739507666219351/?notif_t=like¬if_id=1489145457955854

Como reunião de forças de todas as entidades envolvidas, iremos realizar um grande ato:
21 de Março – Grande ato do Dia de combate ao racismo e ao capitalismo!
“Derrotar os ataques de Temer e arrancar, com a luta, reparação para o povo negro!"
Concentração: Praça da Liberdade (Metrô Liberdade) ás 17h para irmos até as escadarias do Teatro Municipal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Solidariedade