Celebrado em 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência chama atenção para as desigualdades ainda existentes nas áreas científicas. Criada em 2015 pela Organização das Nações Unidas (ONU), em parceria com a UNESCO e a ONU Mulheres, a data tem como objetivo ampliar a participação de meninas e mulheres na ciência e promover a igualdade de gênero, conforme estabelecido na Resolução A/70/212 da Assembleia Geral.
Apesar dos avanços conquistados ao longo das últimas décadas, a presença feminina ainda enfrenta obstáculos estruturais, culturais e institucionais. Dados da UNESCO indicam que apenas 33,3% das pessoas pesquisadoras no mundo são mulheres, e somente cerca de 35% dos estudantes das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) pertencem ao público feminino. Os números evidenciam que a ciência ainda carrega desigualdades profundas que limitam oportunidades e trajetórias.
A valorização das mulheres na ciência vai além do reconhecimento individual. Trata-se de construir uma sociedade mais justa e inovadora, na qual diferentes perspectivas ampliem a produção científica e fortaleçam soluções coletivas para desafios globais. Incentivar meninas desde cedo, questionar estereótipos de gênero e garantir condições institucionais adequadas são passos essenciais para transformar esse cenário.
O 11 de fevereiro também dialoga diretamente com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS-5) da Agenda 2030 da ONU, que busca alcançar a igualdade de gênero e fortalecer o protagonismo feminino em todas as áreas. A formação científica, quando acessível e diversa, contribui para o desenvolvimento sustentável, para a democracia do conhecimento e para a promoção da justiça social.
Ao divulgar histórias e trajetórias de pesquisadoras brasileiras, o Sindsef-SP ressalta a importância de reconhecer quem constrói ciência diariamente, muitas vezes enfrentando desafios adicionais relacionados a gênero, raça, origem social e identidade. Conhecer essas histórias é também um gesto político e educativo: inspira novas gerações e amplia o debate sobre a necessidade de políticas públicas que garantam igualdade de oportunidades.
Cientistas mulheres para conhecer
Ester Sabino
Médica, imunologista e professora da Faculdade de Medicina da USP, referência internacional em genômica e doenças infecciosas. Doutora em Imunologia pela USP e ex-diretora do Instituto de Medicina Tropical, foi uma das responsáveis pelo mapeamento genético do coronavírus no país e lidera o projeto CADDE, voltado ao diagnóstico de epidemias em tempo real.
Jaqueline Goes de Jesus
Biomédica, professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e pesquisadora em vigilância epidemiológica. Coordenou a equipe que realizou o primeiro sequenciamento do genoma do vírus SARS-CoV-2 na América Latina. Doutora em Patologia Humana e Experimental (UFBA/Fiocruz), ganhou notoriedade mundial ao liderar o sequenciamento do coronavírus no Brasil em apenas 48 horas. Atua em pesquisas sobre arboviroses e é uma forte voz na divulgação científica, incentivando meninas a seguirem carreira na ciência.
Rosalva Reis
Geógrafa e professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Especialista em gestão ambiental e educação voltada para unidades de conservação marinha. Doutora em Políticas Públicas e mestra em Gestão e Políticas Ambientais. Sua pesquisa foca na geografia da população e na preservação de ecossistemas, com destaque para sua atuação na Reserva Extrativista Marinha de Cururupu (MA). Trabalha na intersecção entre políticas públicas e o desenvolvimento sustentável de comunidades tradicionais.
Simone Maia Evaristo
Bióloga, supervisora de ensino no INCA e presidente da Associação Nacional de Citotecnologia (Anacito). Referência nacional no controle do câncer e na formação técnica de citotecnologistas no Brasil. Bióloga com especialização em Citologia Clínica pela UFRJ. Atua no Instituto Nacional de Câncer (INCA), onde coordena a formação de profissionais para a detecção precoce de câncer. Sua trajetória é dedicada ao fortalecimento das políticas de rastreamento e à valorização do citotecnologista no diagnóstico oncológico público.
Kellen Vilharva Guarani-Kaiowá
Bióloga, mestra em Biologia Geral e doutoranda em Clínica Médica pela Unicamp, originária da etnia Guarani-Kaiowá. Sua pesquisa integra saberes tradicionais indígenas e ciência, com foco em etnofarmacologia, analisando plantas medicinais e conhecimentos ancestrais para fortalecer a saúde e a identidade cultural de sua comunidade. Trabalha para dar visibilidade aos povos indígenas na academia e na ciência brasileira.
Tamires Cruz
Bióloga, mestra em Ecologia e pesquisadora em genética e melhoramento de plantas. Primeira mulher indígena Tupiniquim doutora em Genética e Melhoramento de Plantas no Brasil. Desenvolve pesquisas em biotecnologia e biologia molecular, conectando o rigor científico à ancestralidade e sustentabilidade. Atua na linha de frente da valorização de saberes indígenas dentro da academia, utilizando a ciência para fortalecer a identidade cultural e a conservação ambiental através do estudo genético de plantas.
Sônia Guimarães
Física, professora e pesquisadora. Primeira mulher negra brasileira a obter doutorado em Física (University of Manchester, 1989) e a primeira mulher negra a lecionar no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), onde atua em pesquisa de semicondutores e desenvolvimento de sensores eletrônicos. Luta pela inclusão de mulheres e pessoas negras na ciência, com palestras, participação em comissões e projetos que promovem diversidade e equidade na academia.
Márcia Barbosa
Física, professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Secretária de Estratégias Estratégicas do MCTI. Especialista em anomalias da água e vencedora do Prêmio L’Oréal-UNESCO para Mulheres na Ciência. Doutora em Física pela UFRGS, com pós-doutorado pela Universidade de Maryland. É membro da Academia Brasileira de Ciências e conhecida internacionalmente por suas pesquisas sobre as propriedades físico-químicas da água e como elas podem ser aplicadas para resolver problemas de dessalinização e saúde.
Marcelle Soares-Santos
Física e astrofísica, professora na Universidade Brandeis (EUA) e pesquisadora associada ao Fermilab. Líder em projetos internacionais de cosmologia e premiada pesquisadora sobre a expansão do Universo. Doutora em Física pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado nos Estados Unidos. Especialista em energia escura e na expansão acelerada do Universo, utilizou o Dark Energy Survey para realizar descobertas significativas sobre ondas gravitacionais. Foi agraciada com a prestigiosa bolsa da Fundação Alfred P. Sloan, reconhecimento concedido aos jovens cientistas mais promissores do mundo.
Vivian Miranda
Astrofísica, pesquisadora na Universidade do Arizona e única brasileira em projeto estratégico da NASA. Primeira mulher trans a cursar pós-doutorado em astrofísica na Universidade do Arizona e referência em cosmologia. Doutora em Física pela USP com pós-doutorado nos EUA. Integra a equipe da missão Nancy Grace Roman da NASA, desenvolvendo um satélite de 3,5 bilhões de dólares para investigar a energia escura e a evolução do Universo. Sua trajetória une a fronteira da tecnologia espacial ao combate ao preconceito, inspirando a inclusão de pessoas trans em projetos científicos de alta complexidade.
Eliade Lima
Astrofísica e docente do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza na Unipampa. Coordenadora de projetos de representatividade negra e combate ao assédio no meio acadêmico. Doutora em Ciências com pós-doutorado em Astrofísica Estelar. Além de sua atuação científica, é uma liderança em divulgação científica, focando no apoio à entrada e permanência de meninas e mulheres em STEM. Coordena a exposição “Astrofísica dos Corpos Negros”, projeto que promove a representatividade racial e inspira novas gerações de cientistas.
Kátia Demeda
Antropóloga e pesquisadora com foco em comunidades tradicionais da Amazônia. Especialista em mediação de conflitos socioambientais e estudos de perdas e danos. Doutora em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento pela UFOPA, atua há duas décadas no Baixo-Amazonas e Oeste do Pará. Sua pesquisa é centrada em populações rurais e tradicionais, coordenando estudos críticos como o de Perdas e Danos de Juruti Velho, fundamentais para a justiça social e ambiental na região amazônica.
Cicilia Peruzzo
Professora e pesquisadora pioneira nos estudos de comunicação comunitária, popular e alternativa no Brasil. Ex-presidente da Intercom e coordenadora do Núcleo de Estudos de Comunicação Comunitária e Local (COMUNI). Doutora em Ciências da Comunicação pela USP e mestra pela Universidade Metodista de São Paulo. Sua trajetória acadêmica é marcada pela investigação das interfaces entre comunicação e cidadania, além de estudos sobre Relações Públicas no terceiro setor e no capitalismo. Autora de obras fundamentais como “Comunicação nos movimentos populares”, Cicilia possui vasta experiência na liderança de associações científicas, como a ALAIC e a Lusocom, e atua no fortalecimento da mídia local e regional como instrumento de transformação social.




