Nos dias 7 e 8 de março, membros do Conselho Deliberativo do Sindsef-SP estiveram reunidos na sede da entidade para um encontro de formação política e planejamento das atividades do sindicato. A programação incluiu debates sobre a conjuntura internacional e nacional, a luta das mulheres trabalhadoras e a organização das mobilizações previstas para 2026.
Após o encerramento do encontro, os conselheiros participaram do ato do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, realizado na Avenida Paulista.
Conjuntura internacional e impactos no Brasil
O debate sobre conjuntura contou com a participação de Fábio Bosco, representante do Setorial Internacional da CSP-Conlutas, que abordou as tensões no Oriente Médio e os desdobramentos da disputa geopolítica entre as grandes potências.
Segundo a análise apresentada, os recentes ataques ao Irã devem ser compreendidos no contexto da disputa pelo controle de recursos energéticos e da competição estratégica entre Estados Unidos e China. Para os participantes, esses conflitos não se limitam ao campo militar, mas impactam diretamente a economia global, com reflexos sobre preços, cadeias produtivas e condições de vida da classe trabalhadora.
A discussão também destacou que a classe trabalhadora tem sido bombardeada por guerras, disputas comerciais e transformações nas relações de trabalho, que parecem crises aparentemente desconectadas, mas que na prática, fazem parte de uma mesma dinâmica do capitalismo global.
Precarização do trabalho e ofensiva contra direitos
No plano interno, as intervenções apontaram preocupação com o avanço da precarização das relações de trabalho no Brasil. Entre os pontos criticados estiveram a expansão da pejotização e a manutenção de jornadas consideradas abusivas, como a escala 6×1.
Os conselheiros relataram situações vividas por familiares e conhecidos que ilustram o crescimento de formas de contratação marcadas pela instabilidade, ausência de direitos trabalhistas e jornadas extensas.
O debate também abordou a construção de uma narrativa que busca apresentar essas formas de trabalho como sinônimo de liberdade ou empreendedorismo, especialmente entre os jovens. Para o conselho, esse discurso tende a naturalizar a retirada de direitos garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como férias, jornada regulamentada e proteção previdenciária.
Diante desse cenário, os conselheiros reafirmaram a necessidade de fortalecer a organização coletiva e a mobilização sindical como instrumentos para enfrentar o avanço da precarização.
Críticas ao modelo econômico
Outro ponto discutido foi a inserção do Brasil na economia internacional. As análises apontaram preocupação com o processo de ampliação da exportação de produtos primários e pela redução da capacidade industrial e tecnológica do país.
Durante o debate, também foram mencionados exemplos de desmonte de setores estratégicos ao longo das últimas décadas, resultado de pressões externas, políticas econômicas voltadas ao mercado financeiro e ausência de um projeto nacional de desenvolvimento.
Exemplos desta pressão externa visando impedir o desenvolvimento tecnológico, e, portanto, avanços em nossa soberania nacional, não faltam. Nos anos 90, é sabido, houve pressão dos Estados Unidos para que o Brasil fechasse instalações nucleares. Da mesma forma, no início do governo Lula, após uma visita de Bill Gates, o promissor projeto de “Software Livre” foi esvaziado e deixado à margem pelo governo. Estes são apenas dois dos exemplos citados na reunião, juntamente a outros envolvendo Embraer, Avibrás, Petrobrás, etc.
O resultado é a paralisia de indústrias de ponta como a Avibras, onde trabalhadores de alta qualificação estão há três anos sem salário.
O país, detentor de 20% das terras raras do mundo, prefere exportar minério bruto a investir em processamento nacional.
Para os participantes, esse cenário contribui para a perda de soberania tecnológica e limita as possibilidades de geração de empregos qualificados no país.
Luta das mulheres e combate à violência
A luta das mulheres foi tema central das atividades de sábado, com a participação de Érika Andreassy, representante do MML (Movimento Mulheres em Luta) e do Ilaese (Instituto Latino Americano de Estudos Sócio Econômicos), que conduziu um debate sobre a opressão feminina e o crescimento alarmante do feminicídio no Brasil.
Érika destacou que a violência contra a mulher não pode ser tratada como uma sequência de casos isolados ou como um problema restrito ao ambiente doméstico. Trata-se de um fenômeno social estrutural, relacionado às desigualdades de gênero e às relações de poder presentes na sociedade.
Apesar dos avanços legislativos, como a tipificação do feminicídio na legislação brasileira, a realidade demonstra a existência de um grande abismo entre a lei e a proteção efetiva das mulheres. Segundo dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 e a pesquisa “Visível e Invisível” do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil atingiu a trágica marca de 1.518 feminicídios no ano passado, uma média de 4 mulheres assassinadas por dia, em crimes motivados por violência de gênero.
Além dos casos consumados, Érika chamou atenção para o grande número de tentativas de feminicídio, que muitas vezes não aparecem com a mesma visibilidade nas estatísticas, mas revelam a dimensão da violência enfrentada pelas mulheres.
O debate também abordou formas particularmente cruéis de violência, como a chamada violência vicária, quando o agressor tira a vida dos filhos ou familiares com o objetivo de provocar sofrimento na mulher.
Precarização social e vulnerabilidade das mulheres
O aumento da violência de gênero também está relacionado ao agravamento das condições sociais. A precarização do trabalho, o avanço da informalidade e o enfraquecimento das políticas públicas ampliam a vulnerabilidade das mulheres.
Nesse contexto, elas acabam sendo atingidas de forma dupla. Como trabalhadoras, ocupam frequentemente os postos mais precarizados e são fortemente impactadas pela informalidade e pela retirada de direitos. No serviço público, onde também são maioria em diversas áreas, enfrentam o congelamento salarial e o desmonte de carreiras.
Ao mesmo tempo, como usuárias de políticas públicas, sofrem diretamente os efeitos da redução de investimentos em áreas como saúde, assistência social, transporte e educação infantil. A falta de creches, a precarização do SUS e a fragilidade das redes de proteção social acabam ampliando a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado que historicamente recai sobre as mulheres.
Falta de recursos para políticas de proteção
Outro ponto criticado foi a insuficiência de recursos destinados às políticas de enfrentamento à violência contra a mulher. Apesar da existência de programas e campanhas institucionais, há uma grande distância entre os anúncios oficiais e a efetiva implementação de serviços de proteção.
A falta de investimento se reflete, por exemplo, na escassez de casas de acolhimento, na ausência de delegacias especializadas em muitas cidades e na precariedade das estruturas de atendimento às vítimas.
Sem orçamento adequado, muitas políticas acabam se limitando a medidas formais que não conseguem garantir proteção efetiva às mulheres.
Misoginia nas redes e ofensiva ideológica
O debate também abordou o crescimento de discursos misóginos nas redes sociais, onde grupos organizados têm difundido ataques ao movimento feminista e campanhas de desinformação, criando um ambiente que normaliza o ódio e a violência contra as mulheres.
Para os participantes, essa ofensiva ideológica tem relação com o avanço de setores da extrema direita que buscam deslegitimar pautas ligadas à igualdade de gênero e aos direitos das mulheres.
O papel do sindicato
Durante a atividade, participantes compartilharam relatos de situações de assédio, violência e discriminação vividas por mulheres em seus ambientes de trabalho e em suas relações pessoais.
A troca de experiências reforçou a necessidade de que o sindicato mantenha uma postura ativa no enfrentamento ao machismo e à violência de gênero. Para os participantes, o combate à opressão das mulheres não pode ser tratado como uma pauta secundária, mas como parte fundamental da luta da classe trabalhadora.
Planejamento das mobilizações para 2026
No domingo, o conselho deliberativo concentrou as discussões no planejamento das atividades do sindicato para o próximo período.
Entre as prioridades definidas estão:
• Mobilização para participação no Congresso da CSP-Conlutas, que marcará os 20 anos da central sindical;
• Realização de seminários de formação política bimestrais, com temas como saúde mental, neurodivergência e direitos dos aposentados, dentre outros.
Campanha salarial e negociações com o governo
A reunião do Conselho também reservou espaço para o debate sobre a campanha salarial e informes sobre a situação nos órgãos. Luis Genova, servidor do Ipen e secretário-geral do Sindsef-SP, apresentou uma avaliação do andamento das negociações entre o funcionalismo e o governo.
Segundo ele, a pauta entregue ao governo pelos fóruns nacionais do funcionalismo ainda está aquém das necessidades da categoria. Na análise apresentada, o governo tem priorizado a definição de calendários e a realização de reuniões, sem avanços concretos nas negociações.
Genova também criticou a fragmentação das tratativas em mesas setoriais, o que acaba desviando o foco da principal reivindicação da categoria: a recomposição salarial após anos de perdas acumuladas.
Os servidores federais enfrentaram congelamento salarial durante o governo Bolsonaro e receberam reajustes considerados paliativos no governo Lula, insuficientes para recuperar o poder de compra. Além disso, aposentados e pensionistas foram deixados de lado quando os reajustes foram aplicados apenas aos benefícios dos servidores da ativa.
Diante desse cenário, os participantes reforçaram a necessidade de ampliar a mobilização para pressionar o governo por avanços efetivos nas negociações.
Na sequência, servidores compartilharam informes sobre a situação nos diferentes órgãos.
Encerramento no ato do 8 de março
Com coletes, produzidos especialmente para a ocasião, e cartazes com as principais bandeiras de luta, uma coluna do Sindsef-SP se dirigiu ao ato do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, realizado na Avenida Paulista.
A participação no ato marcou o encerramento de um final de semana dedicado à formação política, ao debate coletivo e à organização das próximas lutas da categoria.





