
A noite do Globo de Ouro de 2026 entrou para a história do cinema brasileiro. Wagner Moura, ator nordestino e baiano, venceu a categoria de Melhor Ator em Filme de Drama por sua atuação em O Agente Secreto, enquanto o longa também conquistou o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. É a primeira vez que o Brasil sai da premiação com duas estatuetas na mesma edição — um feito que não se resume ao reconhecimento artístico, mas que reafirma a potência política, cultural e histórica do nosso cinema.
Trata-se de um marco simbólico num país que, por anos, viu a cultura ser atacada, desfinanciada e tratada como inimiga. O que essa vitória diz, em alto e bom som, é que A CULTURA RESISTE. Mais do que uma conquista individual, o reconhecimento internacional de um artista nordestino no centro da indústria cultural global rompe estigmas históricos e destaca o Nordeste como território de produção cultural crítica, sofisticada e universal.
Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto é um filme sobre “memória, ou sobre a falta de memória ”, como disse Wagner Moura em seu discurso. Trata de trauma geracional, silêncios impostos e feridas que seguem abertas na sociedade.
O ator premiado lembrou que há pouco tempo o Brasil viveu sob um governo de extrema-direita que reativou símbolos, práticas e discursos herdados da ditadura militar — uma referência clara ao governo de Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe.
“A ditadura militar é uma ferida aberta na vida brasileira. Ela aconteceu apenas 50 anos atrás. Nós recentemente tivemos – de 2018 a 2022 – um presidente de direita radical/fascista no Brasil que é uma manifestação física dos ecos da ditadura. A ditadura está muito presente na vida diária do Brasil, então precisamos continuar a fazer filmes sobre ela”, disse Wagner Moura após receber o prêmio.
A ditadura militar brasileira não é um capítulo distante, encerrado e resolvido. Ela reaparece nos discursos autoritários, na naturalização da violência de Estado e na intolerância contra tudo e todos que fogem dos padrões conservadores.
Cinema também é disputa de memória. Quando um filme escolhe lembrar, ele confronta o apagamento. Quando escolhe narrar a dor, ele impede que o esquecimento vença. Daí a força política de obras como O Agente Secreto: elas reafirmam o compromisso com memória, verdade, reparação e justiça. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.
O cinema como ferramenta de enfrentamento à extrema-direita

Após a premiação, Kleber Mendonça Filho foi ainda mais explícito ao contextualizar a vitória:
“Há 10 anos o Brasil deu uma virada para a direita e esse momento acabou. O ex – presidente (Bolsonaro) agora está preso. Ele foi irresponsável de forma épica em não liderar o país. E eu realmente acredito que os filmes, o cinema pode ser uma forma de expressar alguns dos lutos, dificuldades e tristezas que temos em termos da sociedade em que vivemos.”, disse.
A falta de elaboração dos traumas do passado ajuda a explicar por que projetos autoritários insistem em retornar, travestidos de novidade, mas sustentados pela mesma lógica de violência, repressão e intolerância.
Não é coincidência que a extrema-direita ataque artistas, universidades, servidores da cultura e políticas públicas de fomento. A cultura incomoda porque pensa, questiona, denuncia e cria sentidos coletivos. O bolsonarismo flerta com a ditadura justamente porque teme a liberdade criativa, a diversidade e a crítica. Prefere o silêncio ao debate, a violência ao diálogo, a censura à arte.
A hostilidade a artistas que se posicionam, como Wagner Moura, revela um falso patriotismo, que se diz defensor da pátria, mas relativiza a democracia sempre que ela deixa de servir aos seus interesses políticos.
Quando um filme brasileiro vence o Globo de Ouro contando uma história atravessada pela memória da repressão, o recado é claro: a arte não se curva ao autoritarismo. Ao contrário, ela o expõe.
Nordeste, território de memória e resistência democrática
O filme O Agente Secreto carrega de forma contundente a marca do Nordeste brasileiro e, em especial, da cultura pernambucana. Majoritariamente filmado em Recife, o longa transforma a capital de Pernambuco em personagem central da narrativa, explorando suas paisagens urbanas, suas memórias e seus silêncios históricos.
Mesmo sendo uma obra de ficção, o filme dialoga diretamente com a história real do país ao se situar em 1977, em pleno período da ditadura militar, incorporando referências culturais e lendas urbanas conhecidas do imaginário local, como a “Perna Cabeluda”, presente na música Banditismo por uma questão de classe, de Chico Science. Essa “alma nordestina” atravessa o filme não apenas como estética, mas como posicionamento político.
Dirigido por um cineasta pernambucano e protagonizado por um ator baiano, O Agente Secreto destaca o cinema autoral feito em Pernambuco e valoriza uma tradição cultural historicamente marginalizada, mas profundamente comprometida com a reflexão crítica sobre o Brasil.
Um feito que reafirma o cinema brasileiro no mundo
A vitória de O Agente Secreto também inscreve o Brasil, novamente, no mapa do cinema internacional. Até então, apenas Central do Brasil, de Walter Salles, havia vencido a categoria de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, em 1999. No ano passado, Fernanda Torres também fez história ao vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz.
Esses reconhecimentos resultam de décadas de construção, de políticas públicas, de formação técnica, de universidades públicas, de editais, de servidores comprometidos com a cultura e de artistas que insistem em criar mesmo diante da precarização.
Nada disso existiria sem o papel estruturante do Estado e do trabalho cotidiano de servidoras e servidores públicos da cultura.
Valorizar a cultura é uma escolha política
Celebrar essa vitória exige ir além do aplauso. Valorizar a cultura, de fato, significa garantir políticas públicas permanentes de fomento, fortalecer o sistema MinC (Ministério da Cultura), investir em equipamentos culturais e reconhecer o papel estratégico dos servidores públicos que sustentam esse sistema todos os dias.
Sem financiamento, não há filme. Sem política pública, não há acesso. Sem servidores valorizados, não há continuidade. Defender a cultura é defender a democracia, a diversidade e a capacidade do país de refletir criticamente sobre si mesmo.
A vitória de Wagner Moura e de O Agente Secreto não é apenas do cinema. É de todos que acreditam que a cultura é um direito, não um luxo; uma necessidade coletiva, não um privilégio. Em tempos de disputas narrativas e ameaças autoritárias, ela segue sendo uma das trincheiras mais potentes da democracia brasileira.





