SINTRAJUD: ‘Esquerda deve defender as suas bandeiras nas manifestações’, dizem militantes

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Após agressões de grupos reacionários em São Paulo, reportagem entrevistou dirigentes do PSOL, PSTU e servidores para avaliar a situação e os próximos passos da luta. 

Por Caê Batista 

 

Tinha tudo para ser um dia de festa e comemorações. A manifestação convocada pelo Movimento Passe Livre [MPL] para quinta-feira, dia 20 de junho, celebraria uma das maiores vitórias do movimento popular na cidade de São Paulo, e no Brasil, dos últimos anos: a revogação do reajuste das tarifas de ônibus, trens e metrô.

Quem esteve na Av. Paulista naquela quinta-feira, entretanto, pode ter ficado um pouco assustado com o que viu. Bandeiras nacionais e posturas nacionalistas, palavras de ordem com conotações de direita, um sentimento de repúdio às bandeiras de partidos de esquerda e movimentos sociais e agressões físicas a militantes. O mesmo se repetiu em várias cidades do país.

No dia seguinte, os próprios “líderes” do MPL anunciaram que não convocariam mais manifestações e defenderam publicamente a presença de vários dos partidos de esquerda que foram agredidos, ressaltando a participação deles desde o início das mobilizações. Há relatos de que militantes do MPL também foram agredidos.

“A grande massa que está aqui não compreende que partido é uma instituição legítima e democrática. Organizar-se em forma de partido é tão democrático quanto organizar um protesto”, opinava o servidor do Tribunal Regional Eleitoral [TRE-SP], Elizaldo Veríssimo, na quinta-feira, ainda no começo da manifestação.

Para tentar entender o que está acontecendo, a reportagem ouviu dirigentes do PSOL, PSTU, servidores do Judiciário Federal com alguma experiência em militância política e o professor de sociologia da Unesp, Giovanni Alves. Com nuances diferentes, as opiniões convergem no sentido de que não estamos vivendo um clima de pré-golpe militar ou de uma população defendendo majoritariamente ideais fascistas. Segundo as pessoas ouvidas pela reportagem, estamos vivendo um momento de polarização social, onde as pessoas estão indo às ruas por reivindicações bastante progressistas, e a esquerda deve apresentar as suas ideias à sociedade.

“[O momento] exige que a esquerda continue presente no movimento disputando sua direção, com as suas reivindicações, não vamos às ruas com as mesmas bandeiras que os movimentos reacionários. E o desafio é garantir a entrada em cena da classe trabalhadora”, avalia o historiador Valério Arcary, membro da direção nacional do PSTU.

Para ele, na quinta-feira, 20 de junho, apesar da agressão de grupos fascistas, “talvez pagos”, não significa que haja “um movimento de massas fascista no Brasil”. “Havia influência de ideias reacionárias, havia simpatia por ideias de esquerda e repúdio aos símbolos da esquerda, que eram todos interpretados com sendo do PT”, argumenta.

Arcary ressalta que existe uma geração – de até 25 anos – que cresceu num país cujo governo nacional é liderado pelo PT. “[Essa geração] associa toda a esquerda ao PT, não vê diferença entre a oposição de esquerda e o governo, e que repudia o governo, repudia a corrupção e associa toda esquerda ao PT, o PT à corrupção”, sustenta.

A explicação ajuda a entender o repúdio aos símbolos da esquerda. Há também, além disso, o desgaste aos partidos tradicionais, ou “da ordem”, como diz o deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PSOL, Ivan Valente. Para ele, existem pequenos e bem organizados grupos de direita, que estão aproveitando o desgaste dos grandes partidos, “que estão metidos na corrupção, que estão nessa governabilidade conservadora, para atingir também os partidos que têm compromisso com a luta, os partidos de esquerda, ou os movimentos sociais”.

O caráter das manifestações foi explosivo e imprevisível: “Eu acho que é uma explosão coletiva, de um descontentamento que estava camuflado, embora várias lutas já estivessem acontecendo, em que é difícil prever a magnitude da insatisfação”, sustenta o deputado, que completa: “ainda nós não temos condições de saber o quanto durarão, quer dizer, que energia foi liberada e onde vai desembocar”.

Para Ivan Valente, é preciso “repudiar qualquer intolerância, e mostrar que [as manifestações são democráticas] e, particularmente, que esses partidos que têm legitimidade para estar no movimento popular e social e sempre estiveram”. O deputado também destaca que é preciso entender “que há uma manipulação tanto pelos setores de direita, quanto pela grande mídia, para levar a uma ideia de antipartidarismo”. “E nós devemos trabalhar bastante agora as bandeiras políticas que encontrem os anseios do movimento, sem abrir mão de nossa identidade política”, concluiu.

“Saímos do facebook”

Todas as ideias, de direita e de esquerda, já circulavam nas redes sociais. E agora elas saíram às ruas. “É emblemática uma plaquinha que vi: ‘Saímos do facebook’”, diz o servidor da Justiça Trabalhista Marcelo Penna Kagaya.

“No Facebook tinha um monte de gente de esquerda e um monte de direita, de extrema direita. Então, tão logo saíram do facebook, saiu tudo. Mas muitas pessoas que estavam em casa, das mais diversas tendências, tanto de direita, quanto de esquerda, foram para as ruas”, analisa.

Marcelo, contudo, não vê na conjuntural atual um cenário propício para uma tentativa de um golpe reacionário, mas não menospreza, nem diminui a participação de grupos reacionários nas manifestações: “Não creio que a conjuntura seja favorável para um golpe da direita, mas que esses grupos têm a intenção de caminhar para isso sim, de conduzir o processo, não tenho dúvida”.

A precariedade existencial

Os protestos populares que temos acompanhado e participado são os maiores desde o “Fora Collor”, em 1992, mas não guardam paralelos, diz o sociólogo Giovanni Alves: “É um fenômeno social inédito. Não dá nem para comparar com o último movimento social de amplitude que foi o “Fora Collor!” e também não dá para comparar com o movimento das ‘Diretas Já!’”, diz.

Autor de diversos livros e professor da Universidade Estadual Paulista [Unesp], Alves interpreta as recentes manifestações como uma revolta do precariado. “O precariado é uma camada social da classe, do proletariado, constituída por jovens altamente escolarizados, desempregados ou inseridos numa forma de trabalho e vida precários”, explica.

A precariedade, segundo diz, vai além do universo salarial. “Você encontra principalmente uma precariedade existencial, no sentido da falta de perspectivas no país”, argumenta.

Por isso, ele afirma, a tendência é que o movimento ganhe ainda mais corpo e reivindicações mais radicalizadas: “Não podemos achar que as demandas são de meramente 20 centavos. Você tem demandas de uma juventude que busca uma vida plena de sentido.

Em 10 anos de Lula e Dilma, embora os indicadores tenham mostrando que tenham avanço na economia, estabilidade, crescimento, salário mínimo, emprego, você também tem o vazio existencial, no sentido que é uma sociedade que está adoecida pela pressão e pela gestão na lógica do capital”.

Se as demandas do movimento serão mais radicalizadas, e a participação tende a aumentar, a responsabilidade da esquerda também fica maior. Para Marcelo Penna, “o momento é propício para que haja a consolidação de uma ampla frente de lutas, de todas as organizações políticas progressistas, ou seja, vinculadas às lutas da classe trabalhadora. Que são os partidos políticos, os sindicatos, os movimentos sociais”.

Embora o momento seja favorável, ele continua, evidentemente que a consolidação dessa frente “ainda vai ter que ser construída”. Marcelo sustenta que os sindicatos devem ajudar a organizar essas lutas, as paralisações, em torno de um projeto comum, um projeto que tenha objetivos claros. “Creio que a gente não pode se perder em pautas que são genéricas. Essa pauta que está sendo apresentada, pelo fim da corrupção, ela tem sua legitimidade, mas ao mesmo tempo ela é muito vazia”, diz.

Daí a importância da participação das organizações políticas, principalmente pelo acúmulo de experiência nas mobilizações. “[Elas] podem nos orientar a traçar estratégias mais objetivas para a mobilização, a gente não pode se perder. E os sindicatos e os partidos políticos, os movimentos sociais têm um papel importantíssimo nisso”, conclui Marcelo.

 

* Jornalista do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (Sintrajud)

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