Superintendente da SRTE/SP diz que “faz de conta” não ver irregularidades em obra da Copa

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“Se esse estádio não fosse da Copa, os auditores teriam feito um auto de infração por trabalho precário e paralisando a obra. Estamos fazendo de conta que não vemos algumas irregularidades”, afirmou o superintendente regional do Trabalho e Emprego em São Paulo, Luiz Antônio Medeiros, ao jornal Folha de S.Paulo. Ele se referia ao Itaquerão, o estádio do Corinthians, onde vai acontecer a abertura e seis jogos da Copa do Mundo.

O superintendente, que já foi alvo de crítica por atitude machista denunciada pelo Sindsef-SP, está equivocado ao envolver os auditores na suposta omissão de irregularidades. O sindicato repudia essa prática de culpar servidores públicos federais pelas posturas do governo Dilma. Este, sim, deveria ser responsabilizado, junto ao governo Alckmin e as empreiteiras terceirizadas por este, pelos problemas na obra, inclusive, a morte de três operários.

A obra do Itaquerão estava parada até o dia 11 de abril devido ao acidente do trabalhador terceirizado Fábio Hamilton da Cruz (23 anos), no dia 29 de março, que faleceu depois de cair da altura de nove metros durante a colocação de arquibancadas provisórias para o Mundial de futebol.

“Isso é trabalho precário. Não vamos nem entrar neste assunto porque vai atrasar ainda mais a obra. Falei com o ministro e ele deu respaldo. Estamos fazendo de conta que não estamos vendo”, disse Medeiros.

A declaração mostra que o governo federal está mais preocupado em cumprir o prazo limite estabelecido Fifa para entrega da obra, dia 15 de maio, do que com a segurança dos operários e, também, do público dos jogos. Isso não é novidade, já que Dilma e Alckmin promovem o aumento da terceirização, que tem a precarização como consequência.

A cada 10 mortes causadas por ocorrência de acidente de trabalho 6 acontecem em empresas terceirizadas. É comum que estas não garantam capacitação e EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) aos seus funcionários, além de submetê-los a jornadas de trabalho maiores e a remunerações mais baixas. 

A última vítima fatal na obra do estádio do Corinthians trabalhava para a WDS Construções, terceirizada pela Fast Engenharia, terceirizada pela AmBev, que fez parceria com o governo estadual para a instalação de arquibancadas provisórias. Uma tripla terceirização! Dessa forma, uma empresa joga a culpa do problema para a outra e, no final, fica mais difícil encontrar o verdadeiro responsável quando acontece um desastre.

Com a terceirização, os trabalhadores e toda a população saem perdendo, as empresas terceiras ficam com o lucro e os governos, geralmente envolvidos em esquemas de superfaturamentos e corrupção, fingem-se de cegos e mudos.

Depois da repercussão das declarações do superintendente, o MTE divulgou uma nota pública, assinada pelo ministro Manoel Dias, garantindo que a inspeção não se omitiu no cumprimento do seu papel constitucional. Entre cinco pontos abordados, o texto esclarece que “Em nenhuma fiscalização admite-se que qualquer outro interesse sobreponha-se à proteção à saúde e à vida dos trabalhadores”.

As obras na arquibancada provisória norte foram retomadas com autorização do órgão. A Fast Engenharia teria cumprido as exigências da fiscalização sobre as medidas de proteção coletiva. Mas, antes disso, Medeiros também havia contado à Folha que os fiscais encontraram operários trabalhando sem EPIs no local.  

Somando as três mortes no Itaquerão, oito operários já perderam a vida construindo os estádios para a Copa do Mundo. Talvez o governo faça coro com o “rei Pelé”, que acha “normal” as mortes e considera o maior problema os atrasos nas obras dos aeroportos (inclusive, em um destes foram resgatados 111 trabalhadores em situação análoga à de escravo). São prioridades diferentes.

As prioridades dos governos agora são entregar os estádios e garantir a realização do megaevento, escondendo os problemas sociais, mesmo que isso custe o sangue de operários e a repressão brutal à população que vai às ruas exigir investimentos em saúde, educação, transporte e moradia.

Esse país do faz-de-conta com certeza não é o Brasil que os trabalhadores querem. Enquanto uns cantam “Tô vendo tudo, tô vendo tudo, mas fico calado, faz de conta que sou mudo”, outros entoam “Na Copa vai ter luta!”.

 

“Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas fico calado, faz de conta que sou mudo 

Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem Deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa serviz
E massacram-se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é com certeza o meu país

Um país que é doente e não se cura,
quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo,
sem saber emergir da noite escura.

Um país que engoliu a compostura,
atendendo a políticos sutis,
que dividem o Brasil em mil “Brasis”,
pra melhor assaltar de ponta-a-ponta,
pode ser um país do faz-de-conta,
mas não é, com certeza, o meu país.

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas fico calado, faz de conta que sou mudo”

 

Trecho da música “Meu país”, cantada por Zé Ramalho
Compositores: Orlando Tejo / Gilvan Chaves / Livardo Alves

 

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