Donald Trump conduz a maior reforma no serviço público dos Estados Unidos em mais de um século. Semelhanças com a proposta de Reforma Administrativa no Brasil não é mera coincidência
Sob o argumento de “drenar o pântano” (Drain the Swamp, um dos slogan de campanha), Donald Trump conduz uma ofensiva estrutural sem precedentes contra os serviços públicos norte -americanos, visando substituir quadros técnicos por aliados ideológicos, privatizar ainda mais os serviços essenciais e desestruturar o acesso a direitos básicos.
O projeto, maior reforma em mais de um século, é impulsionado pelo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) do governo Trump, que foi liderado pelo bilionário Elon Musk.
Em curso, o projeto já implicou no desligamento de 317 mil servidores federais entre janeiro e novembro de 2025, segundo Scott Kupor, Diretor do Escritório de Gestão de Pessoal dos Estados Unidos.
Entre outras medidas, o projeto prevê uma mudança na forma de contratação dos servidores. O pilar dessa estratégia é o Schedule F, decreto assinado poucas horas após a posse de Trump, que autoriza o Presidente a reclassificar dezenas de milhares de servidores de carreira como cargos de livre nomeação, acabando com a proteção contra demissões políticas.
O objetivo é claro: aumentar o controle político sobre a administração pública, removendo funcionários considerados “hostis” à agenda presidencial para substituí-los por nomeados alinhados ideologicamente com a extrema direita.
Ao mesmo tempo, com uma retórica agressiva que rotula servidores como “parasitas” e “burocratas inúteis”, Musk utilizou o discurso de austeridade, redução de gastos e eficiência do Estado para eliminar agências reguladoras e extinguir políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), sob o pretexto de um “mérito” que ignora desigualdades históricas.
Servidor como inimigo
A narrativa adotada para convencer a opinião pública é a velha estratégica de “fabricação de inimigos”, construindo uma polarização típica de governos de extrema direita.
As mudanças seriam necessárias para combater o “deep state” (estado paralelo), servidores e servidoras desonestos, corruptos e privilegiados.
Na prática, o projeto visa aumentar o controle político sobre a máquina estatal, limitando o sistema público de freio e contrapesos essenciais em regimes democráticos.
O argumento de modernização do estado e melhoria dos serviços também surgem para justificar a concentração de poder, o desmantelamento de órgãos públicos e ataque à Democracia.
Impacto Social
A desestruturação técnica já cobra seu preço e quem está pagando é a população norte-americana. As demissões para “enxugar” a máquina estatal tem impactado, por exemplo, no acesso à aposentadoria dos americanos.
Conforme divulgado pelo Jornal Nacional, em apenas dez dias, o site que milhões de americanos usam para gerenciar aposentadorias, pensões e outros benefícios saiu do ar quatro vezes. Com os cortes de servidores para atender as pessoas, o número de acessos sobrecarregou o sistema e as filas também cresceram.
Segundo o Jornal, as demissões para atender ao autoritarismo de Trump e Musk atingiram até mesmo o Departamento de Agricultura em pleno surto de gripe aviária nas fazendas. Foi preciso recontratar agentes de contenção do vírus para controlar a situação.
A saída de especialistas de agências como o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e o FDA (Food and Drug Administration) paralisou a fiscalização de medicamentos e o monitoramento de doenças, deixando o país vulnerável a crises sanitárias.
A interrupção de diretrizes federais de inclusão deixou escolas locais sem verbas e sem suporte para alunos com deficiência, enquanto o desmonte de programas de equidade atinge famílias de baixa renda.
O Espelho Brasileiro
Qualquer semelhança com as políticas defendidas pelo Bolsonarismo no Brasil não é mera coincidência. A guerra contra tudo que é público é uma política global da extrema direita. O objetivo é desmontar os serviços públicos e, portanto, as políticas públicas de combate à desigualdade social, e alinhar a máquina pública aos interesses privados e políticos da extrema direita.
Quem não se recorda da PEC 32, a ofensiva bolsonarista contra os servidores e os serviços públicos. Os argumentos eram os mesmos: modernização do estado, combater os supostos privilégios dos servidores, reduzir gastos combatendo o inchaço do estado, deixar a administração mais eficiente e etc. A proposta, no entanto, significava atacar os servidores e desregulamentar o papel do estado na área das políticas de proteção social.
Graças a resistência dos servidores brasileiros, o governo Jair Bolsonaro não conseguiu emplacar a PEC 32. Mas, em 2025, os representantes do bolsonarismo no Congresso Nacional retomaram a pauta com a PEC 38.
Apesar de não ter avançado ainda na Câmara dos Deputados com a chegada de ano eleitoral, a proposta de nova reforma administrativa mantém muitas semelhanças com o projeto em curso nos EUA, mesmo considerando as enormes diferenças entre os serviços públicos dos dois países.
Assim como o Schedule F de Trump, o ataque ao regime de estabilidade dos servidores brasileiros com a abertura para novos vínculos de contratação proposto pela Reforma Administrativa também abre caminho para o apadrinhamento político e a perseguição de servidores que denunciem irregularidades. Ambas as propostas buscam concentração de poder.
O espantalho discursivo do deep state disseminado por Trump nos EUA, no nosso país, encontra a sua versão no discurso de supersalários dos servidores, uma realidade que não atinge nem 1% do funcionalismo de todo o Brasil.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, a extrema direita fabrica um inimigo para justificar seu projeto antipovo que facilita o patrimonialismo, o apadrinhamento e a corrupção. O objetivo é o mesmo: convencer a opinião pública de que o servidor é o problema, enquanto se prepara o terreno para a ocupação ideológica da máquina pública.
Nos EUA, Trump quer acabar com o pouco de serviço não privatizado que resta ao povo norte-americano. No Brasil, a extrema direita quer avançar com as privatizações dos serviços essenciais. Enquanto os turistas norte- americanos que precisam do SUS ficam impactados com o acesso gratuito à saúde no Brasil, os políticos brasileiros de extrema direita querem imitar o modelo fracassado de saúde privada dos EUA.
Isto porque travar uma guerra contra os serviços públicos é parte do projeto político e ideológico da extrema direita no mundo todo, sob os pilares do neoliberalismo, conservadorismo e nacionalismo autoritário.
Atacar o serviço público serve tanto para abrir novos campos de exploração comercial quanto para enfraquecer a estrutura do Estado Democrático que garante direitos sociais, avançando no autoritarismo e na concentração de poder.
Ao travar uma guerra contra o público, a extrema direita ataca, fundamentalmente, a ideia de bem comum. Por isso, não nos resta dúvida de que só venceremos esse embate coletivamente.
Fonte: Fonasefe





